Santa Maria foi a primeira ilha dos Açores a ser descoberta, em 1427, por Diogo Silves, devendo o seu povoamento a Gonçalo Velho Cabral, por volta de 1432/1439. Vila do Porto tornou-se, assim, no primeiro Burgo dos Açores.

Os seus colonizadores forem portugueses originários do Algarve e do Baixo Alentejo, verificando-se a sua influência na tipologia da habitação, existente sobretudo nas freguesias rurais, nomeadamente, em Santo Espírito e em Santa Barbara.

É a ilha mais velha dos Açores e também a de menor risco sísmico, remontando as lavas mais antigas ao período do Ternário /65 a 8 milhões de anos), já não havendo quaisquer indícios de vulcanismo activo. Constitui também uma das ilhas de maior interesse geomorfológico, possuindo formações sedimentares, calcários e fósseis marinhos únicos nos Açores.

A insolação em Santa Maria é elevada em relação às restantes ilhas do Arquipélago pois atinge uma média anual superior a 7/10 de céu descoberto, daí ser conhecida como “Ilha do Sol”.

Desta ilha fazem parte cinco freguesias, nomeadamente a freguesia de Santa Bárbara, a qual situa-se entre a Ribeira do Salto e a Ponta do Norte, num vale pitoresco, na parte mais oriental da ilha de Santa Maria, a 12 quilómetros da sua sede concelhia, Vila do Porto. A sua localização geográfica vale-lhe o epíteto de Freguesia “Sol Nascente”, onde primeiro nasce o sol (cerca de 24 minutos mais cedo do que nas Flores, o ponto mais ocidental do Arquipélago). Com uma área de 15 quilómetros quadrados, Santa Bárbara confronta, a norte e a este, com mar, a sul com a freguesia de Santo Espírito e, a oeste com a de São Pedro.

De relevo bastante acentuado, engloba os lugares de Termo da Igreja, Lagos, Lagoinhas, Feteiras de Santa Bárbara, Pocilgas, Pico do Penedo, Poço Grande, Boavista, Forno, Fajã de São Lourenço, Norte, Arrebentão, Tagarete e Eira Alta.

As habitações que formam a localidade distribuem-se pelos diversos lugares, que se situam, por vezes, a grandes distâncias uns dos outros, servidos por caminhos que nem sempre são de fácil acesso. Primitivamente, a região era designada por “Terras do Nordeste”.

Santa Bárbara orgulha-se das personalidades que, tendo nascido ou vivido no selo das suas terras, deram um importante contributo para o desenvolvimento do País e para o bem-estar da população.

Exemplo disso foi um senhor que ocupou o cargo de cura, na Igreja de Santa Bárbara, o Padre Manuel do Couto Benevides, natural da freguesia de água do Pau, onde nasceu a 2 de Novembro de 1849. Músico de reconhecido mérito, algumas das suas obras ainda se cantam, presentemente, nas Igrejas da Ilha.

Durante a sua estada em Santa Maria, exerceu, na Comarca de Vila do Porto, as funções de advogado de provisão, revelando ser um orador muito eloquente. A sua actuação mereceu os maiores elogios e o Delegado do Governo dirigiu-lhe o seguinte rapto: “- Senhor Padre Benevides, cultive o seu talento, dê uma base segura à sua grande inteligência, dispa a batina e vá Para Coimbra cursar Direito.”

Também muito influente nesta humilde freguesia foi o Padre Ângelo Soares da Câmara, pároco de Santa Bárbara e ouvidor, fez construir a primeira casa de Nossa Senhora de Lurdes, inaugurada em 1839, e dotou-a de uma renda anual de cento e dezasseis litros de trigo.

Segundo Gaspar Frutuoso, “A Freguesia de Santa Bárbara deve-lhe grandes serviços, e os seus paroquianos também lhe devem muito, porque o Padre Ângelo não é somente, para eles, um cura de almas, atende-os em tudo, chegando a sacrificar os comodidades da vida o que, em sua consciência, entende ser para o bem estar dos seus fregueses.

Por sua iniciativa e instâncias, várias obrasse tem ali feito, como um chafariz ao lado da Igreja paroquial, um novo cemitério, e vários outros melhoramentos importantes”.

Vale sempre a pena recordar as histórias e as lendas que povoam o imaginário colectivo de uma comunidade, porque dão consistência a um passado comum, criando indestrutíveis laços de identidade e união entre as consciências individuais. Vejamos alguns exemplos:

Até há poucas décadas, os assuntos relativos à vida administrativa da Freguesia eram apregoados pelo Presidente da Junta de Freguesia, que se dirigia ao povo, à saída da missa dominical, subindo a um ponto elevado no adro da Igreja.

Dr. Luís Duarte Rebelo da Câmara, administrador do Concelho, residente na Vila, espírito oculto e um pouco trocista, tinha o hábito de perguntar a um velhote da freguesia de Santa Bárbara, seu conhecido, quantos cestos de terra havia no Pico Alto.

Quando, mais uma vez, o inteligente senhor perguntou ao idoso homem se já sabia o número de cestos de terra que tinha o Pico Alto, ele pensou um pouco e, calmamente, observou-lhe:

“olhe, não tive escola, mas se forem grandes, tem muitos, e, se fizer um cesto do tamanho do Pico Alto, tem um…”

Na freguesia de Santa Bárbara, em certo tempo, um sacerdote perguntou a um paroquiano quantos eram os inimigos da Alma, ao que este respondeu:

” Eh! Senhor Padre, são três: Abril, Maio e Junho – e acrescentou – é que, nestes meses, eu passo mais fome, porque os dias são maiores.”

Então o bondoso padre disse-lhe:

“são três, na verdade: o mundo, o diabo e a carne.”

Sim, porque realmente, nesta Ilha, se passavam muitas faltas de géneros alimentares, especialmente de farinhas, sobretudo no Verão, quando este era seco, porque os moinhos, por falta de água não moíam.Houve então, alguém que, por ser mais abastado, fez um moinho, ao qual deram o nome de atafona, e que era puxado por um cavalo, no entanto, só autorizava as pessoas amigas e irem lá moer, algumas das quais, por não terem animal próprio, eram elas mesmas a fazer andar o moinho, a fim de moerem os mantimentos para sustento da família, que por vezes era muito numerosa.

Houve também um octogenário que, apesar se quase analfabeto, falando-lhe um amigo, em certa ocasião, da fome que havia nesta Ilha, respondeu com simplicidade:

“Pão é o que eu quero ter, que o conduto eu o trouxe do entre da minha mãe.”

É quando o interlocutor lhe perguntou o significado daquela frase:

“O conduto é a fome que eu trouxe do ventre da minha mãe.”